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29.11.21

NOVA EDIÇÃO DE "BUSTO" DA AMÁLIA RODRIGUES


Tiago Ferreira

«Foi o encontro de Amália com Alain Oulman que criou a modernidade no Fado. Uma revolução consciente mas não premeditada que muitos sentiram alheia, estrangeira, mas que para sempre elevou a qualidade musical e poética do repertório fadista, ampliando o seu público e as implicações artísticas do próprio género.As primeiras sessões de gravação que fizeram juntos, e que deram origem ao Disco do Busto, aconteceram no Teatro Taborda, ao Castelo, de madrugada, entre 1960 e 1962, e permanecem aquilo que melhor nos transporta a esse momento refundador da música portuguesa.A longa vivência de Amália no meio mais tradicionalista do fado, desde 1939, ao lado de Alfredo Marceneiro ou Armandinho, Hermínia Silva ou Lucília do Carmo, Berta Cardoso ou Filipe Pinto, permitiu-lhe depois, com Alain Oulman, atingir um imenso requinte artístico sem nunca perder a autenticidade. Amália inscreveu o Fado nas disciplinas do espectáculo internacional, mas guardou nela o respeito basilar pela essência do género e um conhecimento profundo do repertório e das maneiras de cantar que a antecederam. A atracção pela sofisticada música de Oulman foi um natural e requintado florescimento dessas raízes, nunca se transformando em experimentalismo sem consequências para o futuro. Se os fados de Oulman trazem novos encadeamentos harmónicos e novas amplitudes melódicas, respeitam as estruturas e a liturgia do Fado.A famosa frase do guitarrista José Nunes “vamos às óperas”, quando a eles se referia, condensa a estranheza e a reverência que esta música suscitou.Mas Amália, neste Disco do Busto, não revelou apenas a inovadora música de Oulman. Afirmou também as primeiras versões dos seus dois fados tradicionais mais emblemáticos, “Povo que Lavas no Rio” e “Estranha Forma de Vida”. Transfigurados pelo erudito fraseado musical que lhes inventou e pelo recorte literário dos versos que escolheu, de Pedro Homem de Mello e de si própria, Amália transformou o “Fado Vitória”, de Joaquim Campos, e o “Fado Bailado”, de Alfredo Marceneiro, nos dois fados estróficos mais reconhecíveis ainda hoje pelo grande público. A ressonância do (e no) ambiente Oulman foi lapidar.No Teatro Taborda foi também gravado o primeiro fado sobre um poema de Camões, “Dura Memória”, que por não fazer parte do Disco do Busto foi pouco notado na altura - a polémica pelo “atrevimento” só surgiria anos depois, com o nome do poeta visível na capa. O soneto abria o segundo disco produzido nestas sessões, o LP Amália 1963 (que nunca seria publicado em Portugal), e é aqui restaurado nesse significativo lugar.Quando, em 1961, Amália o cantou na televisão, à pergunta sobre de quem eram osversos, apenas respondeu: “Estavam num livro…” Foi a resposta de quem, por não querer romper com nada, tudo conseguiria mudar.Outra conquista decisiva de Amália, tão bem sentida pelo compositor, foi ter transformado o Fado num veículo de alto virtuosismo musical, pelo controlo absoluto da sua insuperável vocalidade e pela invenção do colorido que adaptava à dramaturgia que fazia de cada poema. Foi o seu génio musical e interpretativo que permitiu a Amália consagrar o Fado em palco sem nunca o reduzir a uma curiosidade etnológica.Foi isso que apaixonou, em Paris, em 1959, o eruditíssimo Alain Bertrand Robert Oulman.A partir daí, ele apenas para aquela voz quis escrever. Numa das cumplicidades mais impremeditáveis e luminosas da História da criação artística, Amália e Alain encontraram para o Fado a sua definição contemporânea, a sua intemporalidade, a reinvenção de uma tradicional melancolia.Se logo em Paris, nesse primeiro encontro, Alain lhe oferece a melodia de “Vagamundo”, e passado pouco tempo Amália a canta ao vivo, é na intimidade artística e pessoal vivida entre um acampamento na Ericeira, os ensaios em casa dela e as gravações no Teatro Taborda que a ligação se aprofunda. Nesta edição podemos ouvir todos os registos conhecidos desses passos, alguns inéditos.Amália e Alain Oulman cedo intuíram que muitos dos fados que criaram, tão ligados à Poesia, encontravam o seu lugar perfeito num álbum para ouvir em casa, muito mais do que na velocidade do palco. No intimismo do disco encontram também a perpetuidade que o espectáculo não consegue ou nós próprios não atingimos. É nesse sentido de legado civilizacional que estas sessões, mais do que testemunharem o renascimento de um género, conseguem, na sua pureza artística e na sua modernidade eterna, a ansiada interrupção do Tempo.» Frederico Santiago

 

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